Quem procura preço, nem sempre encontra qualidade.

O título deste texto é um conhecido slogan amplamente utilizado pelo varejo para alertar o cliente que busca apenas preço baixo. Neste caso, ele também se encaixa nos serviços de obras municipais.

Por Vorlei Guimarães – 08/01/2014 – 21h

Quase na mesma linha de raciocínio, uma reportagem do Jornal Debate, de 12 de dezembro de 2013, critica o péssimo serviço das obras municipais, especificamente sobre o serviço executado no talude do Rio Campestre.

Apesar do pouco conhecimento que tenho sobre o assunto, como contribuinte me senti no direito de comentar o fato. E mais: ao longo deste texto tento ir além do tema central da referida reportagem, como forma de mostrar que a prática é mais comum do que se imagina e não se trata de exclusividade de governos municipais.

Imagem meramente ilustrativa

Imagem meramente ilustrativa

Para começarmos a refletir sobre o assunto, vamos analisar o processo de licitação pública no Brasil, onde costumeiramente, o principal requisito para ganhar um contrato é o preço. Ganha a empresa que apresentar a melhor proposta, ou seja, o menor preço. Nestes casos, qualidade, durabilidade e garantia são relegadas ao segundo plano. Ocorre que o menor preço é só uma das muitas variáveis que nos possibilitam entender as razões que podem explicar o porquê dos péssimos serviços contratados pelo poder público. Entendo não ser fácil explicar aos munícipes a contratação de uma empresa com proposta de valor maior, principalmente se não houver um compromisso claro e transparente com a qualidade.

A carência de fiscalização, o descaso com o dinheiro do contribuinte, o descomprometimento das autoridades, falta de ética, a formação profissional de funcionários técnicos que não se equipara com o cargo e até o desconhecimento da legislação são outros fatores que contribuem para o resultado negativo a que me reporto.

Outro fator não menos importante é a mercantilização da educação. A multiplicação de faculdades que ofertam preço em detrimento da qualidade dos cursos, somada a conivência das autoridades, tem colocado no mercado profissionais despreparados para o desempenho da função.

Os constantes desmoronamentos de prédios ocorridos nos últimos anos comprovam a péssima formação técnica profissional e ética dos estudantes. O fato me leva a crer que tais problemas não são decorrentes apenas da condição de formação técnica e ética, mas também de fatores “impostos” no decorrer das obras que podem afetar diretamente na qualidade das mesmas. Como exemplo, cito as exigências de menor preço em licitações, que obrigam a redução de vários itens, que garantiriam a boa qualidade de uma obra/serviço.

Outro importante fator é a inexistência de lei que determine a contratação de uma empresa especializada no controle tecnológico das obras, o que desobriga muitos órgãos públicos ou privados a buscar esse importante serviço.

Muitas obras financiadas pelos governos federal e estadual, há muito tempo requerem a contratação de laboratórios para o controle tecnológico, mas que sejam acreditados pelo INMETRO, órgão que dá credibilidade ao prestador de serviços. No Brasil, território das oportunidades e dos oportunistas, laboratórios não credenciados e inadequados se reproduzem ao avistarem o excelente cenário de transformação do país num imenso canteiro de obras, pelos próximos anos.

O mesmo problema é detectado também em nossas rodovias e ruas urbanas. Serviços de baixa qualidade reduzem a vida útil das obras, obrigando o poder público a novos investimentos em prazos cada vez mais curtos. É semelhante à obsolescência programada, facilmente detectada nos produtos eletro-eletrônicos que, de maneira semelhante, vem se sucedendo no setor de serviços.

Pode parecer utopia de minha parte, mas, para toda e qualquer construção deveria haver prazo de validade. Afinal, todo produto ou serviço tem vida útil e, dessa forma, os governantes poderiam planejar melhor suas reformas ou manutenções com antecedência, inserindo-as em seu plano político administrativo.

Enquanto isso, ou exercemos nossa cidadania e exigimos melhores serviços, ou aguardamos deitados em berço esplêndido até que esse panorama mude por sua própria vontade.

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