Nossos ídolos driblados pelo vocabulário

Enquanto os principais clubes brasileiros profissionalizam sua gestão contratando administradores profissionais para comandar suas rotinas, jogadores com salários astronômicos não se reciclam e envergonham seus fãs quando falam em público.

Quem acompanha o mundo esportivo sabe perfeitamente que conciliar a profissão de jogador de futebol com a de estudante universitário não é fácil, principalmente se considerarmos o injusto calendário de jogos estabelecido pela CBF, que prioriza lucros em detrimento do espetáculo.

No que se refere a gestão, os clubes da Europa dão um show nos brasileiros. Na Inglaterra e Espanha, eles faturam R$ 9,4 bilhões e R$ 6,3 bilhões por ano, respectivamente, enquanto no Brasil a arrecadação anual é de R$ 3,1 bilhões.

Diante desse panorama, jogadores mais instruídos, como Paulo André (Corinthians), Seedorf (Botafogo), Rogério Ceni (São Paulo), entre outros, criaram o Clube do Bom Senso para cobrar da CBF um calendário justo, que permita aos atletas, de maneira geral, não apenas uma boa preparação física, mas, também intelectual, em busca de melhor instrução visando garantir um futuro melhor após o encerramento da curta carreira de jogador de futebol.

Muitos deles, vindos de classes sociais com baixíssimas condições, não têm no vocabulário a mesma habilidade dos pés no momento de responder às entrevistas e acabam revelando o baixo nível de escolaridade e o profundo desconhecimento da língua pátria.

Frases feitas que se transformaram em chacotas folclóricas no mundo do futebol revelam a fragilidade na formação cultural fora das quatro linhas. Entre tantas outras , “O adversário é muito difícil, mas vamos dar tudo de si para ajudar os companheiros a ganhar a partida”. “Quando o jogo está a mil, minha naftalina sobe”.

Mas essa repetição de frases decoradas e erradas pode produzir um reflexo ainda maior, se levarmos em conta a admiração que os fãs têm por esses jogadores. Além de lançarem moda no vestuário e cortes de cabelo, influenciam também nos valores culturais dos torcedores.

Observei outro dia um garoto de seis anos se atirar na área numa disputa com o zagueiro e, após a seqüência do lance, reclamar energicamente com o árbitro por uma infração inexistente. Será que se espelhou na malícia de algum ídolo?

Domingos, ex-zagueiro do Santos e da Portuguesa, quase foi transformado em herói no programa Globo Esporte, cujo apresentador se referia a ele como “o último dos verdadeiros zagueiros”, quando, na realidade, o atleta sempre esteve relacionado a jogadas duras e violentas. Nesse caso, a imagem do jogador foi reforçada por um veículo de massa.

Voltando à peleja entre jogadores e o vocabulário, muitos estão atentos para a importância da educação e do conhecimento no seu dia a dia. Contudo, não apenas os atletas, mas as equipes também devem se planejar para o momento da aposentadoria dos seus ídolos.

A sala de aula ainda está bem longe de ser um lugar atraente para a maioria dos atletas se não houver uma cobrança mais incisiva por parte de seus representantes.

Um abraço ao meu aluno Felipe, goleiro do Clube Atlético Linense.

Vorlei Guimarães

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